Palavra do Sérgio

SE no passado é uma ilusão, no presente é uma possibilidade e no futuro é um sonho sem idade.

Palavra do Sérgio

SE no passado é uma ilusão, no presente é uma possibilidade e no futuro é um sonho sem idade.
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Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2007

17.11.07

Feriadão na Paulicéia


Feriadão na Paulicéia

Tropa de Elite na sexta-feira e Leões e Cordeiros na quinta, foram os filmes escolhidos por mim e a Valéria para pagar nossa dívida cultural com o cinema, no feriadão sem filhos. Até tentamos ir ao teatro para buscar uma forma de entretenimento menos comum, mais de carne e osso. Acontece que o teatro tinha os ingressos esgotados e o resultado foi que ninguém atendia nossos telefonemas para pedir informações, ou estava sempre ocupado. Então, fomos pessoalmente no local para comprar o desejado ingresso, mas fomos tratados com a indiferença dos seres humanos que desconhecem a importância do bom trato, que é sempre bem-vindo, mesmo com a casa cheia.
De volta á trilha cinematográfica, aparentemente mais preparada para esse negócio de informar, atender e vender, nos deparamos com a primeira coincidência, pois havíamos escolhido dois filmes aleatoriamente e ambos tinham a guerra como tema principal. Uma guerra é a dos americanos contra o terrorismo no oriente médio. A guerra do inimigo invisível, assim como no Vietnam, que mais parece um pretexto para vender mais armas e satisfazer a fome da industria armamentista americana, que parece não ter fim. Uma jornalista, magnificamente interpretada por Meryl Steep, idaga seu chefe: “você deve ter idade suficiente para se lembrar do The Who?”, então ela prossegue, lembra aquela música: Meet the new boss, the same as the old boss. Curiosamente essa música tem o título “We won´t get fooled again”. Muita ironia para quem, após o Vietnam achava que nunca mais seria enganado pelo patriotismo guerreiro contra o inimigo invisível e lá estavam eles novamente; vamos fazer a propaganda da guerra de forma convincente para reconquistar a confiança do povo americano. Justamente aquele povo que nunca mais seria enganado, pelo menos dito pelos ingleses do The Who.
Duas guerras, sendo que a outra, se trata do combate aos traficantes do morro, num emaranhado de confusões sem pé nem cabeça. Fica difícil saber quem é do bem e quem é do mal. No caso, o tráfico de drogas é a tipificação do demônio, dos matadores de criancinhas, do mal encarnado no poder das favelas que ocupou os vácuos do stablishment, do estado omisso. A polícia é retratada como nós sempre a vimos, lobo em pele de cordeiro ou será leões em pele de hiena?
Ambos os filmes tem um par de amigos que são idealistas, e lá como cá, há gente boa que acredita no sistema e se ferra em grande estilo. São heróis anônimos que morrem na guerra, deixando uma grande pergunta: Por quê?
A diferença entre as guerras é só uma questão de escala, os EUA numa tentativa de cuidar da democracia moderna ocidental, contra o fundamentalismo islâmico primitivo, em nome de um mundo democratico livre. Como livre, se a gente não pode ser o que quer? Temos que acreditar no fundamentalismo americano ou...?
Na escala local do Rio e Janeiro, a causa é outra: acabar com o trafico no morro e derrotar os policiais corruptos. Também há o inimigo invisível, que sempre muda de cara a cada nova eleição. O bem e o mal, os mocinhos e os bandidos estão falando inglês e português, mas diferentemente de John Wayne, que sempre ganhava, hoje o mal tem chances de vencer. Será a vida imitando a arte ou a arte imitando a vida? A verdade é cruel. Nossos pais fumavam e acreditavam no John Wayne.
Dor e esperança são sentimentos antagônicos, assim como alegria e morte. Mesmo que você odeie o morto assassinado, sempre é a sua própria morte que te acena dizendo: “cara vai chegar a sua vez! “
O debate acadêmico e a vida na faculdade estão presentes em ambos os filmes. Os jovens, lá como cá, tem uma posição apática sobre tudo e se preocupam somente com a diversão. A frivolidade do “enternainmtent” americano e o baseado paz e amor dos jovens cariocas dão espaço e alimentam a guerra.
No “ college”, o professor americano se aferra a sua missão de preparar um jovem talentoso para aproveitar ao máximo o seu potencial em favor da sociedade. Na faculdade carioca a missão parece ser entender o inexplicável, debater sobre a hipocrisia de uma sociedade que se esconde de seus problemas, sem atacá-los de frente, buscando culpados, demônios, sem objetivos e visão clara de uma causa pela qual lutar. Tudo fica no ar, com ressentimentos mal resolvidos.
Tudo que o estado precisa é de uma juventude apática, apagada e sem ideais. Nos anos 60 eles deram muito trabalho, para que? Para mudar o mundo, que realmente mudou, ou será que mudou na estética e preservou a essência. Os métodos do poder não mudaram.
A arte da política não mudou, os lobbies não mudaram, os lobbistas se fortaleceram e os senadores são estrategistas fugazes.
A arte imitando a vida. A vida se tornou mais intrigante que a arte, ou as duas se fundiram e se tornaram uma só? manifestações da energia, que cruelmente se ocupa de entreter nossas mentes em busca de algum significado para nossa existência, para nossas angústias.
O idealismo, cercado de inocência pura dos jovens em ambos filmes, nos dá esperança e depois nos atira no abismo da razão sem ação. O abismo mais profundo, de uma existência sem significado.